Apesar do mercado internacional registrar preços recordes, Gana, segundo maior exportador mundial de cacau, enfrenta uma grave crise de produção e finanças. Nos últimos três anos, o país africano vem falhando em atingir suas metas de safra, agravando ainda mais a situação de sua principal instituição do setor: o Ghana Cocoa Board (COCOBOD).
Projeções para a safra 2024/2025 indicam que o país pode colher 4% a menos que o previsto inicialmente, reduzindo a estimativa de 610 mil toneladas métricas. Desde a temporada 2020/2021, Gana não alcança o patamar de 1 milhão de toneladas, marca que já foi referência de liderança na produção mundial.
O colapso produtivo, que já representa uma queda de quase 50% em três anos, tem origem em fatores diversos: atividades ilegais de mineração, alterações climáticas severas e contrabando em larga escala, este último responsável pelo desvio de aproximadamente 100 mil toneladas de cacau em 2024. Como reflexo, o país perdeu boa parte de sua receita tradicional de exportação, que gira em torno de US$ 2 bilhões por ano.
Além das dificuldades agrícolas, a COCOBOD enfrenta sérios entraves financeiros. Segundo dados do orçamento nacional, cerca de 330 mil toneladas de contratos de venda não foram entregues na última safra, sendo forçosamente transferidos para os próximos ciclos. Esse acúmulo de obrigações elevou a exposição da instituição ao risco de crédito, fazendo com que investidores e compradores internacionais reclassificassem Gana como país de alto risco no setor, encarecendo ainda mais os empréstimos.
Outro ponto sensível foi a venda de contratos futuros a preços inferiores aos valores atuais de mercado. Essa defasagem causou perdas estimadas em US$ 840 milhões para a COCOBOD e para os produtores. Com a renovação desses acordos, o prejuízo pode ultrapassar mais US$ 495 milhões, o que representa, em média, uma perda de US$ 4.000 por tonelada entregue este ano sob os contratos antigos.
A dívida total da COCOBOD já ultrapassa US$ 3 bilhões, com cerca de US$ 942 milhões vencendo até setembro de 2025. A capacidade operacional da instituição está em xeque, afetando sua credibilidade internacional e eficiência dentro da cadeia global do cacau.
Apesar disso, Gana registrou aumento temporário na entrada de receitas. No primeiro quadrimestre de 2025, o país arrecadou US$ 1,84 bilhão com exportações de cacau, mais do que o triplo do valor apurado no mesmo período de 2024. A melhora, no entanto, está atrelada aos preços internacionais elevados, não a uma recuperação da produção interna.
Especialistas alertam que os problemas estruturais persistem: a expansão do garimpo ilegal, os impactos das mudanças climáticas e o tráfico transfronteiriço de amêndoas continuam pressionando a já combalida cadeia produtiva. A demanda global por chocolate segue firme, mas cresce a preocupação quanto à estabilidade futura da oferta, uma equação que pode afetar tanto produtores quanto consumidores em escala internacional.
Fonte: Myjoyonline.com
