CONSIDERAÇÕES SOBRE A CACAUICULTURA BRASILEIRA

Durante a década de 1970, a cacauicultura brasileira, concentrada majoritariamente na Bahia, representava um dos pilares da economia estadual e regional graças aos preços elevados do cacau. Nessa década, o preço do cacau atingiu o pico de US$ 4.232 por tonelada, equivalente a mais de US$ 20.000 em valores atualizados pela inflação norte-americana. Surfando nos […]

Durante a década de 1970, a cacauicultura brasileira, concentrada majoritariamente na Bahia, representava um dos pilares da economia estadual e regional graças aos preços elevados do cacau.
Nessa década, o preço do cacau atingiu o pico de US$ 4.232 por tonelada, equivalente a mais de US$ 20.000 em valores atualizados pela inflação norte-americana. Surfando nos altos preços, países africanos como Costa do Marfim e Gana se tornaram grandes
produtores ao custo de graves impactos ambientais e sociais, como desmatamento e uso de trabalho infantil e escravo. Em contrapartida, a cacauicultura brasileira se mantinha ambientalmente responsável e socialmente justa, ao respeitar os biomas em que está inserida — como a Mata Atlântica e a Amazônia — e adotar práticas de cultivo sustentáveis.

O aumento exagerado da produção mundial de cacau provocou o desequilíbrio entre a oferta e a demanda, com reflexo direto nas bolsas internacionais. A Bolsa de Nova Iorque, referência para o mercado brasileiro, viu os preços caírem para menos de US$ 1.000 a tonelada no início dos anos 1990. Nessa época, a associação de preços baixos e danos à produção causados pela enfermidade
conhecida por vassoura de bruxa, levou ao colapso da renda dos produtores nacionais e ao abandono de milhares de hectares de cacau.

Diante desse cenário, os produtores brasileiros buscaram alternativas para complementar a renda oriunda da cacauicultura, inicialmente por meio da produção de polpa de cacau e outros derivados. Paralelamente, instituições públicas intensificaram os esforços em pesquisa, desenvolvimento e transferência de tecnologias, fomentando a consolidação de uma nova cacauicultura, mais resiliente e tecnicamente qualificada. Atualmente, diante da retração da produção global de cacau, especialmente na África Ocidental — decorrente de doenças e adversidades climáticas —, configura-se uma janela estratégica para a expansão racional e
sustentável da produção brasileira, com potencial para reposicionar o país como protagonista no mercado internacional.

Visando ao aumento da produção nacional, o Ministério da Agricultura lançou o PLANO ESTRATÉGICO INOVA CACAU 2030 com a finalidade de implantar, no mínimo, 120.000 hectares de cacaueiros no país. Apesar do plano ser necessário para o aumento da produção de cacau no Brasil, não foi realizado um estudo que minimize as incertezas de mercado. Apesar do momento favorável para a cacauicultura brasileira, a história revela os riscos de uma expansão produtiva desvinculada da realidade do mercado internacional. A retomada do setor depende de estratégias inteligentes no mercado global. Sem isso, o país corre o risco de reviver antigos ciclos de glória e colapso, prejudicando milhares de famílias que dependem da atividade.

Por: Antônio Carlos de Araújo, Mestre em Econonomia Rural, Especialista em Economia Regional, Pesquisador Aposentado do Mapa/CEPLAC, Ex Professor da UESC.

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